Sábado, Fevereiro 25, 2012

Vacinas!

Uma das coisas interessantes de se ter uma bebê de 6 meses em casa (sim! A baixinha já está com 6 meses!!!) é que a gente acaba aprendendo uma série de coisas sobre saúde infantil - particularmente quem, como eu, é mega-nerd e não consegue simplesmente ficar de boa e não se informar sobre um dado tópico que chame sua atenção.

Bem, levei a Sayuri nesta última semana para tomar a terceira dose da tetravalente (difteria, coqueluche, tétano e meningite por Haemophilus influenza tipo b), da pneumocóccica e da de poliomielite. Duas agulhadas e um gole, e a princesa está definitivamente imune contra uma série de doenças que há nem tanto tempo assim eram responsáveis por literalmente milhões de mortes, dor e sofrimento. Science: it works, bitches!



Ala de UTI com respiradores (pulmões de aço) para vítimas da Pólio no final dos anos 40. Na próxima vez que forem a um boteco, levantem um brinde a Albert Sabin e Jonas Salk). Tem muito imagens do estrago que a Poliomielite causava aqui


Bem, após a vacinação voltamos para casa, e depois de um tempo reparei numa certa vermelhidão e inchaço "duro" no local de aplicação da Tetra, além de uma febrinha sistêmica (abaixo de 38C). A febre já era meio que esperada, mas que calombo era aquele na perna da Sayurinha? Será algo grave? Preciso levar ao médico?

Felizmente, há um documento excelente do Ministério da Saúde sobre as reações adversas mais comuns das diversas vacinas do calendário oficial, juntamente com o grau de atenção requerido para cada sintoma: : o Manual de Vigilância Epidemiológica de Eventos Adversos Pós-Vacinação (documento PDF). Excelente para desencanar destas febrinhas, vermelhidões e calombinhos que eventualmente aparecem após a imunização. além disto contém informações detalhadas sobre os ingredientes de cada vacina, além de outras informações bastante interessantes!



Tem muito mais coisa interessante na Biblioteca Virtual de Saúde



Sexta-feira, Dezembro 23, 2011

Crítica à fé versus crítica às organizações.

Muitas vezes as discussões sobre a existência ou não de um deus (qualquer que seja o sabor de preferência do interlocutor) acabam caindo em algumas questões completamente tangenciais:

- Mas você não acha que a religião é uma coisa boa, que mantém a sociedade em ordem?

- Sem a igreja, quem cuidaria dos necessitados?

- Mas você não pode provar que deus não existe!

- Então você odeia deus?

Uma discussão nesta linha ocorreu recentemente no meu Facebook, e resolvi aproveitar as respostas e adaptar algo aqui para o blog.

Antes de mais nada, não há ódio em relação a qualquer deus, apenas descrença. Minha crítica à religião é completamente separada daquela direcionada à hipótese divina, embora em muitos casos as duas acabem sendo confundidas por muita gente no meio da argumentação. A crítica à religião é direcionada a um fenômeno social, enquanto que aquela em relação à ideia de existência de algum deus é baseada na necessidade de evidência proporcional à magnitude de qualquer afirmação objetiva sobre o universo.

Do ponto de vista estritamente filosófico você pode me chamar de agnóstico (no sentido originalmente definido pelo Thomas Huxley), mas na prática penso que a probabilidade de existência divina é tão remota (dada a ausência de evidência de qualquer fenômeno do universo observável requerendo a postulação de uma divindade qualquer) que a atitude na vida diária tende ao ateísmo. Resumindo, eu realmente acho que não existe qualquer coisa sobrenatural (incluindo deuses, macumbas ou leprechauns), mas se você tiver evidências suficientemente fortes eu estou pronto a examina-las. :)

Sobre a questão de "não haver provas de não-existência", recomendo demais a leitura de dois artiguinhos da Wikipedia:

1) Argument from Ignorance

2) Russel's Teapot

Em relação às críticas em relação a religiões organizadas e à igreja católica, um argumento que recebi foi:
"Sobre a tirinha (ver abaixo), sim era um absurdo mas, passou! A igreja já admitiu os seus erros e pediu perdão. Vamos cuidar de problemas ainda não solucionados, como a pedofilia, por exemplo!"




Concordo apenas com uma parte muito pequena desta afirmação: acho sim que devemos focar em problemas que ainda estão acontecendo. Entretanto, não sei se a argumentação de "já passou, pediram desculpas e tá tudo certo" é muito válida.

Considere a seguinte situação baseada em fatos reais (prá não usar o óbvio e nauseante exemplo Godwinesco): o Khmer Rouge torturou, perseguiu, matou e destruiu milhões de vidas no Camboja, até involuntariamente perderem parte do poder em 1979, embora tenham permanecido na ativa até a década de 90. Se amanhã ou depois o um novo lider de um Khmer Vermelho ressurgente, ainda mantendo toda a riqueza acumulada durante o regime prévio, pedisse desculpas e dissesse "isto é passado, já pedimos perdão, vamos focar agora no problema de estupros coletivos que assola nossas fileiras", você sinceramente acha que alguém daria confiança? Que daria uma plataforma pra um Pol Pot Jr. opinar em questões de direitos humanos? Ou em relação a qualquer coisa?

A única razão que consigo imaginar pela qual a ICAR não foi declarada um inimigo durante a WW2 - lembrando que o Vaticano foi PRIMEIRO estado a fazer tratados com o Terceiro Reich (vixi, não consegui escapar do Godwin!), o Reichskonkordat de 1933 que, por sinal, ainda está em efeito até hoje - e possivelmente a única pela qual o Pio XII não estava no banco dos réus em Nurenberg, foi porque a mesma afirma falar em nome do deus cristão. As pessoas de ótimo coração, que seguem a fé porque acham de verdade que é uma coisa positiva, esqueceram ou racionalizaram internamente as atitudes da igreja com uma velocidade impressionante.

A igreja deixou de perseguir mulheres por bruxaria, mas ainda defende a submissão destas aos homens. Ainda se opõe aos preservativos e toda forma de planejamento familiar que não seja a abstinência completa - onde ganha bonus points de ironia, tendo suas fileiras formadas em boa parte por supostos celibatários tentando ensinar aos outros como levar a vida sexual. É uma instituição que ajudou ativamente no genocídio de Tutsis em Ruanda, não no século XV, mas na última década do século XX! Se fosse uma organização secular já teria sido proibida e criminalmente processada em qualquer país civilizado do mundo.

Não digo que não hajam boas pessoas na igreja - isto seria um absurdo tremendo. A esmagadora maioria das pessoas religiosas (de qualquer credo) que conheço são indivíduos fantásticos, morais, que educam seus filhos e pagam suas contas em dia, que se horrorizam com as crueldades humanas e se encantam com a beleza do universo. Assim como as pessoas não-religiosas.

Também não afirmo que não hajam boas ações sendo realizadas por organizações católicas - obviamente tal afirmação seria também injusta. Doações, campanhas do agasalho, ajuda aos necessitados, há ações bacanas feitas por estes grupos. De forma similar, temos o Natal sem Fome do Betinho (que era ateu), os Medecins Sans Frontieres (seculares), e tantas outras organizações de caridade sem afiliação religiosa.

Dito isto, eu não acho que as boas ações redimam a ICAR de seus crimes passados e presentes. Não enquanto a liderança continuar arrotando superioridade moral e pregando as virtudes da humildade e da caridade sentada no alto de pilhas insanas do dinheiro. Ou enquanto insista em forçar suas opiniões não apenas naqueles que voluntariamente escolhem seguir seus preceitos, mas também nos não-seguidores (basta ver o lobby fortíssimo anti-união homoafetiva, anti-aborto, anti-uso de preservativos, etc etc).

Só para fechar, perceba que em nenhum ponto ataquei aqui a fé cristã, mas apenas a organização que se construiu ao redor da mesma. Não escondo de ninguém que tenho minhas opiniões e críticas em relação às afirmações místicas que formam os fundamentos da crença, mas isto não forma a base de minha antipatia pela instituição, cujas razões (bem, algumas poucas delas) mencionei acima.

Terça-feira, Dezembro 20, 2011

Citação do dia

Sobre essa história de nomes e palavras, vou contar a vocês outra história. [Quando eu era criança] costumávamos ir para as Catskill Mountains nas férias. … Estávamos brincando nos campos e esse menino disse para mim: ‘Vê aquele pássaro lá no galho? Qual é o nome dele?’. Eu disse, ‘Não tenho a menor ideia’. Ele disse: ‘É um tordo de papo marrom. Seu pai não lhe ensina muito sobre ciência’. Eu ri comigo mesmo, porque meu pai já tinha me ensinado que [o nome] não me diz nada sobre o pássaro. Ele me ensinou ‘Vê aquele pássaro? É um tordo de papo-marrom, mas na Alemanha é chamado um halsenflugel, e em chinês o chamam de chung ling e mesmo que você saiba todos esses nomes, você ainda não sabe nada sobre o pássaro – você só sabe algo sobre as pessoas, como elas o chamam. Agora, o tordo canta e ensina seus filhotes a voar, e voa muitos quilômetros de distância durante o verão e ninguém sabe como ele encontra seu caminho’. Há uma diferença entre o nome de algo e o que acontece”.<\p>

Richard Feynman, “O que é ciência?”

Quarta-feira, Junho 01, 2011

Celulares e Câncer - Artigo sensacionalista do Meio Bit

Recentemente um colega me chamou a atenção para um artigo do blog de tecnologia Meio Bit descrevendo, em termos apocalípticos, uma interpretação do press release recentemente publicado pela International Agency for Research on Cancer. O tom do artigo, e principalmente sua conclusão sensacionalista ("O celular é hoje, provavelmente, o novo cigarro.") levantaram algumas das usuais red flags na minha cabeça de cético rabugento. Um pouquinho de pesquisa e rastreamento de fontes acabou produzindo o comentário abaixo, que reproduzo aqui para registro:


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Pode ser que tenha algum coelho neste mato, mas lendo a fonte original reparei em algumas qualificações que acho importantes:


"The evidence was reviewed critically, and overall evaluated as being limited2 among users of wireless telephones for glioma and acoustic neuroma, and inadequate3 to draw conclusions for other types of cancers"


Definições associadas:

2 - "'Limited evidence of carcinogenicity': A positive association has been observed between exposure to the agent and cancer for which a causal interpretation is considered by the Working Group to be credible, but chance, bias or confounding could not be ruled out with reasonable confidence."

3 - "'Inadequate evidence of carcinogenicity': The available studies are of insufficient quality, consistency or statistical power to permit a conclusion regarding the presence or absence of a causal association between exposure and cancer, or no data on cancer in humans are available"


Novamente, pode até ser que exista alguma relação causal, mas a melhor evidência obtida até o momento é insuficiente para derivar quaisquer conclusões definitivas a respeito. Aliando isto ao nível de potência bastante baixo dos celulares atuais e aos resultados de pesquisas que mostram uma elevação de temperatura média ordens de magnitude inferior ao ruído térmico do próprio corpo humano (pergunte ao Ramírez ou à Ana [1-2], eles trabalham com isto já há alguns anos), minha atitude inicial é de ceticismo quanto a esta correlação, pending further evidence to the contrary ;-)

Em tempo, a segunda referência citada pelo artigo do Meio Bit como "participantes do estudo que utilizavam regularmente celulares a mais de 10 anos dobraram a incidência de glioma", na verdade lista apenas os seguintes "key facts":

- Mobile phone use is ubiquitous with an estimated 4.6 billion subscriptions globally.
- To date, no adverse health effects have been established for mobile phone use.
- Studies are ongoing to assess potential long-term effects of mobile phone use.
- There is an increased risk of road traffic injuries when drivers use mobile phones (either handheld or "hands-free") while driving.



Nada de aumentos em quaisquer tipos de câncer. Na verdade, a única menção a glioma neste segundo artigo diz exatamente o contrário do sugerido no artigo sensacionalista do Meio Bit:

"The international pooled analysis of data gathered from 13 participating countries found no increased risk of glioma or meningioma with mobile phone use of more than 10 years. There are some indications of an increased risk of glioma for those who reported the highest 10% of cumulative hours of cell phone use, although there was no consistent trend of increasing risk with greater duration of use. Researchers concluded that biases and errors limit the strength of these conclusions and prevent a causal interpretation."


Abração,
Felipe



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[1] Ana de Oliveira Rodrigues, "Caracterização da Taxa de Absorção Específica e do Aumento de Temperatura Induzidos por Telefones Celulares na Cabeça Humana" 2003. Tese (Doutorado em Engenharia Elétrica) - Universidade Federal de Minas Gerais

[2] A.O. rodrigues, L.R. Malta, J.J. Viana, L.O.C. Rodrigues, J.A. Ramírez, "A Head Model for the Calculation of SAR and Temperature Rise Induced by Cellular Phones." IEEE Transactions on Magnetics, v. 44, p. 1446-1449, 2008.

Quarta-feira, Março 02, 2011

Carl Sagan - The Frontier Is Everywhere

Que nunca mais ninguém diga que ciência e razão não são capazes de inspirar o sublime. Tio Sagan, você foi embora cedo demais...





Via i09

Terça-feira, Março 01, 2011

Evolução e Cosmogonia - confusões

Um colega me pediu para comentar um artigo do José Reis Chavez, publicado ontem no jornal O Tempo. Para não ter problemas com direitos autorais não vou replicar o artigo aqui, dêem um pulo lá no link, leiam, e depois voltem para cá!

Abaixo, segue uma reprodução da resposta que enviei. Espero que gostem (e comentem! Este blog está triste porque ninguém manda feedback!)




Interessante o artigo, mas tenho alguns comentários a respeito dos temas abordados. Em primeiro lugar, há de se separar as coisas: a teoria da evolução não se refere à criação da vida ou do cosmos - a primeira é o domínio das teorias sobre abiogênese, a segunda da cosmogonia. Neste sentido, colocar a evolução em contraste com a criação do universo é uma falácia, dado que esta se preocupa com a dinâmica de sistemas biológicos uma vez que estes existem, e não com os mecanismos que iniciaram o processo. Seria como descartar a teoria eletromagnética por não explicar a gravidade: a teoria não se propõe a isto, e a comparação é espúria.

Ainda neste tópico, deve-se lembrar que a oposição dos criacionistas aos fatos da evolução das espécies (comprovados, diga-se de passagem, por múltiplas linhas de evidência independentes - registro fóssil, evidência genética, observação laboratorial, etc.) é baseada principalmente na interpretação literalista dos textos religiosos (sejam eles quais forem). Criacionistas das religiões abraâmicas (uma vez que o mito de criação é o mesmo para cristãos, judeus e muçulmanos) tendem a rejeitar as evidências da evolução por julgá-las incompatíveis com a letra de suas escrituras.

O tipo de criacionismo advogado no artigo, um criacionismo deísta, tende a ser filosoficamente mais seguro, no sentido de não-falsificabilidade. Cientistas que crêem em alguma divindade (o que não é o caso deste que vos fala) tendem a seguir este tipo de idéia: uma divindade que estabeleceu as condições iniciais e depois se diluiu no cosmos ou "saiu de férias". Este tipo de crença é compatível com qualquer nova descoberta da ciência e é, consequentemente, não-falsificável, estando fora dos limites da análise científica. Cientistas com menos tendência à dissonância cognitiva tendem a ter posições filosóficas majoritariamente (mas nem de longe absolutamente) no espectro do deísmo, agnosticismo deísta ou agnosticismo ateísta, e não encontram aí qualquer conflito com o sistema de pensamento necessário à investigação sistemática e adogmática da realidade.



Considerando, por outro lado, o princípio da parcimônia de Occam, Popper, Laplace e companhia, argumentos baseados na existência de uma divindade primordial (ou seja, argumentos deístas) incorporam uma nova premissa gigante em sua construção - a saber, a existência de um ser de complexidade grande o suficiente para criar um universo - que torna modelos deístas (ou teístas) muito mais complexos do que a explicação materialista, e por isto mesmo menos provável considerando o mesmo corpo de dados. Pode-se resumir esta posição como "se o início espontâneo do universo é improvável, a existência de um ser com complexidade infinitamente superior de modo a ser capaz de criar um universo é ordens de magnitude menos plausível". De um ponto de vista científico, não faz sentido escolher uma explicação mais complicada dado que uma mais simples tem o mesmo poder explanatório e requer menos premissas.

É claro que cada pessoa tem, como direito inalienável, a liberdade de acreditar no que quiser, e eu seria a última pessoa do planeta a dizer a qualquer um que ele ou ela não pode acreditar nisto ou naquilo (embora haja ocasiões em que as manifestações da crença alheia me sejam perturbadoras). De um ponto de vista científico e filosófico, entretanto, posicionar uma divindade nas lacunas do nosso conhecimento atual é uma proposição fraca na melhor das hipóteses. De qualquer forma, acredito que concordemos que tentar incluir qualquer menção a proposições religiosas sobre a criação da vida, o universo e tudo mais em cursos de ciência (que é um dos pontos-chave no debate criacionista nos EUA) é desonesto e contraproducente.

Cordialmente,
Felipe

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2011

Reiki: uma avaliação crítica

Resolvi escrever este post especialmente para a genial Daniela Halley, que tem mandado muito bem na organização da Aliança Estudantil Secularista UFMG e é uma cética de primeira linha. Continue mandando bem, Dani!

Pois bem, a Dani me enviou uma mensagem pedindo ajuda para examinar uma certa reportagem da revista Galileu, onde a jornalista Bruna Bernacchio adota uma postura, digamos, pouco crítica em relação a supostos resultados científicos que validariam as modalidades conhecidas como acupuntura e reiki. Como o pedido era especificamente para discutir a seção sobre reiki, vou me concentrar nos argumentos apresentados para esta modalidade. Para quem tiver interesse em uma discussão mais acertada a respeito dos supostos resultados da acupuntura mencionados na Galileu, recomendo o excelente artigo do Dr. Steve Novella (em Inglês. Aproveitem e treinem a leitura!)

Reiki

Antes de passar à discussão, convém definir o que é Reiki. De acordo com o artigo da Wikipédia(a) (traduções e grifos meus):

Reiki is a spiritual practice developed in 1922 by Japanese Buddhist Mikao Usui. It uses a technique commonly called palm healing as a form of complementary and alternative medicine and is sometimes classified as oriental medicine by some professional bodies. Through the use of this technique, practitioners claim to transfer healing energy in the form of ki through the palms.


(Reiki é uma prática espiritual desenvolvida em 1922 pelo budista Japonês Mikao Usui. O Reiki utiliza uma técnica comumente conhecida como cura pelas mãos como uma forma de medicina alternativa e complementar, e é ocasionalmente classificada como medicina oriental por entidades profissionais. Através do uso desta técnica, o praticante de Reiki afirma poder transferir energia curadora, na forma de ki, através das palmas das mãos.)

Em outras palavras, o praticante de Reiki abre as mãos sobre uma determinada parte do corpo, se concentra, e afirma poder manipular ou transferir energias vitais para o paciente, de forma tratar e curar as mais diversas moléstias. Isto torna o Reiki parte de uma corrente conhecida como Vitalismo, cuja premissa é a existência de algum tipo de energia vital que pode ser manipulada ou alterada por adeptos ou praticantes de certas artes. O fato de nenhuma destas energias vitais - ou seus efeitos - jamais terem sido observadas de forma objetiva em mais de 200 anos de investigação científica (Ben Franklin e outros cientistas já investigavam uma modalidade de vitalismo conhecida como magnetismo animal no final do século XVIII, com conclusões fortemente negativas) coloca a plausibilidade prévia deste tipo de modalidade em um valor bastante baixo. Para maiores informações, sugiro ler aqui, aqui, aqui, aqui, e principalmente aqui (este último fala de Emily Rosa, a pessoa mais jovem a publicar um artigo no prestigioso Journal of the American Medical Association, descrevendo o protocolo e testes utilizados para examinar uma modalidade conhecida como toque terapêutico, extremamente similar ao reiki).

Reiki na Literatura Científica

Suponhamos entretanto que possamos ignorar o fato de que estas energias jamais foram detectadas e que não há qualquer plausibilidade fisiológica ou física para sua existência. Dezenas de estudos foram realizados para testar a eficácia do Reiki (e outras modalidades de vitalismo) ao longo dos anos. O que a literatura médica tem a dizer quanto a isto?

Uma revisão da literatura publicada em 2008[1] examinou 205 estudos potencialmente relevantes utilizando Reiki para o tratamento de uma série de moléstias. Dentre estes 205 estudos, apenas 9 possuíam os critérios mínimos de qualidade metodológica para inclusão na análise (randomização, cegamento duplo, descrição detalhada do protocolo utilizado, etc.). Os critérios de seleção empregados na revisão foram:

RCTs were included if they assessed human subjects who received reiki alone or adjunctive to conventional treatment. Trials comparing reiki with any type of control group were included. Any trials with reiki as part of a complex intervention were excluded. Trials, which aimed to develop the methodology of reiki procedures without clinical outcomes were also excluded. Studies in which no data or no statistical comparisons were reported were excluded. Trials assessing healthy subjects were also excluded. No language restrictions were imposed. Dissertations and abstracts were included. Hard copies of all articles were obtained and read in full.


(Testes randomizados e controlados foram incluídos no estudo nos casos onde o estudo foi conduzido em humanos, tanto recebendo somente reiki quanto reiki associado a uma modalidade convencional de tratamento. Testes onde o reiki foi comparado contra qualquer tipo de grupo controle foram incluídos. Testes onde o reiki foi utilizado como parte de intervenções complexas [N.T.: isto é, em associação com muitos outros fatores ou tratamentos] foram excluídos. Estudos onde o objetivo era desenvolver metodologias dos procedimentos de reiki, sem variáveis clínicas de resposta definidas, foram excluídos. Aqueles que não reportaram dados ou comparações estatísticas também não foram utilizados. Restrições de língua não foram impostas. Dissertações e resumos foram incluídos. Cópias impressas de todos os artigos foram obtidas e estudadas completamente. )

Após o agrupamento dos dados e subsequente análise dos dados, os autores concluíram:

In conclusion, the evidence is insufficient to suggest that reiki is an effective treatment for any condition. Therefore the value of reiki remains unproven.


(Concluindo, a evidência é insuficiente para afirmar que o reiki seja um tratamento efetivo para qualquer condição. Assim sendo, o valor do reiki [N.T.: enquanto terapia] permanece sem provas.)

Em uma outra revisão da literatura publicada no próprio Journal of Alternative and Complementary Medicine[2] (que não é sequer um dos mais rigorosos em termos de evidência) concluiu que:

The serious methodological and reporting limitations of limited existing Reiki studies preclude a definitive conclusion on its effectiveness.


(As severas limitações metodológicas e de publicação dos escarsos estudos existentes sobre reiki não permitem alcançar qualquer conclusão definitiva a respeito de sua eficácia.)

Outros estudos de grande volume a respeito do uso de reiki para intervenções diversas foram organizados pelo National Center for Complimentary and Alternative Medicine, e são listados no NCCAM Watch. Os resultados obtidos também são pouco animadores:

Reiki para tratamento de fibromialgia:
Encerrado em 2005.
Conclusões: reiki não foi considerado eficaz no tratamento de fibromialgia.

Reiki em pacientes com AIDS em estágio avançado:
Concluído em 2003.
Conclusões: os resultados não foram publicados na literatura (o que já diz muita coisa).

Reiki para neuropatia dolorosa e fatores de risco cardíaco:
Concluído em 2004.
Conclusões: os resultados não foram publicados na literatura (de novo, já diz muita coisa).


Qualquer um familiar com a literatura científica, e em particular com a literatura médica, consegue entender claramente o que está implicado em todas estas conclusões: a despeito dos quase 90 anos de prática, não há na literatura nenhuma evidência que o reiki funcione melhor que um placebo similarmente aplicado, e que qualquer efeito específico se deve à sugestão do paciente (ou à autosugestão do praticante). Mais recursos para o leitor interessado podem ser encontrados aqui (em texto) e aqui (episódio 29 do excelente podcast Quackcast).

Os Experimentos da Galileu

Mas e os experimentos descritos na reportagem da Galileu? Não representariam uma nova vertente na pesquisa do reiki? (a esta altura, o leitor observador já deveter percebido que pesquisa do reiki provavelmente é uma área tão científica quanto aerodinâmica de unicórnios). Bem, como diria Mark Crislip, lets look at the facts:

A reportagem trata principalmente dos experimentos do psicobiólogo (!) Ricardo Monezi a respeito dos supostos efeitos do reiki em ratos com câncer induzido. Nas palavras de Monezi:

"O animal não tem elaboração psicológica, fé, crenças e a empatia pelo tratador. A partir da experimentação com eles, procuramos isolar o efeito placebo"


Monezi, que segundo seu CV Lattes trabalhou com metodologia experimental, de cara já coloca uma afirmação que não é tecnicamente verdadeira: animais estão sujeitos *sim* a efeitos similares ao placebo! Este fenômeno é conhecido já há bastante tempo na pesquisa veterinária e médica, e é muito bem explicado aqui, aqui e aqui. De forma breve, o placebo não precisa ocorrer necessariamente no indivíduo (humano ou não) receptor do tratamento. No caso de pesquisa com animais, por exemplo, estudos que não sejam duplo-cegos (ou seja, onde o animal de teste não sabe se recebeu tratamento ou controle, mas o administrador da intervenção sabe), observação seletiva e tendências pessoais (a famosa e quase inevitável tendência à confirmação) são praticamente garantidos.

Há outras formas através das quais efeitos similares ao placebo podem ocorrer em pesquisas com animais, mas não vou me alongar demais nisto: quero chamar a atenção aqui é para o fato de que, de acordo com o que podemos inferir da reportagem, os experimentos de Monezi carecem exatamente do tipo de controle duplo-cego que menciono acima, o que - como expliquei - abre as portas para a infiltração de todo tipo de tendência pessoal nos dados.

A métrica de avaliação dos resultados descrita (capacidade do organismo de destruir tumores) é vaga o bastante para não permitir uma discussão mais a fundo em relação a este aspecto. Quaisquer que sejam as especificidades da métrica utilizada, entretanto, o não-cegamento do experimentador invalidaria completamente o protocolo experimental utilizado.

Outra razão para uma saudável dose de ceticismo é o fato de o trabalho descrito na reportagem não ter sido publicado em nenhuma revista científica com revisão por pares - muito menos naquelas em que resultados tão impressionantes como os relatados deveriam estar - JAMA, NEJM, talvez até a Nature. Embora o pesquisador tenha defendido sua dissertação de mestrado sobre o assunto, o fato de seus resultados não terem sido publicados na literatura técnica especializada (onde estariam sujeitos às críticas e comentários da comunidade científica em geral) não costuma ser um indicador de qualidade em pesquisa.

Examinando um pouco mais de perto a dissertação do Ricardo Monezi (onde os experimentos comentados na Galileu são relatados), observei alguns outros aspectos perturbadores:

1) a revisão da literatura em terapias energéticas é feita de forma completamente crédula, sem nenhuma referência a trabalhos refutando estas modalidades (como, por exemplo, o da Emily Rosa no JAMA);

2) o tamanho amostral utilizado (20 indivíduos/grupo) foi pequeno o suficiente para que flutuações estatísticas pudessem ser significativas, mesmo descontando os outros problemas metodológicos;

3) como eu havia suspeitado, na descrição da metodologia utilizada não há nenhuma menção ao cegamento dos experimentadores ou dos responsáveis pelas análises posteriores. Ao contrário, a descrição do procedimento inclui as seguintes imagens, também reproduzidas na reportagem da Galileu:


Nem sinal de cegamento do experimentador


4) não há também nenhuma referência a medidas para prevenir contaminação cruzada das amostras;

5) O teste estatístico utilizado (Student t) requer a satisfação de premissas fortes, que não foram validadas durante ou após a análise estatística (normalidade, igualdade de variâncias, independência das amostras).

5.a) Nota 1: os dados reportados na dissertação me permitiram verificar a premissa da normalidade para a maioria dos conjuntos. Entretanto, a premissa de isoscedasticidade - isto é, igualdade de variâncias - foi violada brutalmente em todos os testes realizados, o que possivelmente implica na não-validade do teste-t utilizado, a menos que precauções extras tenham sido tomadas - o que não foi reportado no texto.

6) Ainda na parte da análise estatística: o autor falhou em corrigir seus valores de significância para múltiplas hipóteses. Além disto, o trabalho testa uma grande quantidade de hipóteses mal-definidas, frisa aquelas onde anomalias foram observadas, e busca - na discussão final, a posteriori da execução dos experimentos - ajustar quaisquer conjecturas às observações, o que é uma prática falaciosa de análise conhecida como caça por anomalias;


Conclusões

Os experimentos e resultados relatados na revista Galileu não fornecem evidências suficientes para quaisquer afirmações a respeito do efeito do Reiki em ratos com tumores. A literatura médica possui refutações bastante definitivas desta prática, tanto de um ponto de vista de plausibilidade biológica quanto de efeitos clínicos. Reiki é uma modalidade de pensamento mágico pré-científico, e pessoas deveriam gastar seu tempo ou dinheiro com coisas mais produtivas e eficientes.

Para aqueles que tem o hábito de argumentar que "pelo menos não faz mal", sugiro uma consulta cuidadosa aos arquivos do What's the Harm.



Para os heróis da resistência que conseguiram chegar até o fim deste texto, meus parabéns! Daniela, espero que isto te ajude em suas discussões a respeito do reiki e outras modalidades de pseudomedicina energética.

Abraços cordiais,


(a) - Em tempo: o artigo da Wikipédia em Português é escrito a partir de um ponto de vista completamente crédulo em relação às medicinas alternativas em geral, e ao Reiki em particular. O artigo equivalente na Wikipedia em Inglês, geralmente muito mais bem embasada, traz uma seção sobre a completa falta de validade do Reiki de um ponto de vista científico.

[1] M. S. Lee, M. H. Pittler, E. Ernst, "Effects of reiki in clinical practice: a systematic review of randomised clinical trials", International Journal of Clinical Practice 62(6): 947–54, 2008.


[2] S. vanderVaart, V.M.G.J. Gijsen, S.N. de Wildt, G. Koren, "A Systematic Review of the Therapeutic Effects of Reiki", The Journal of Alternative and Complementary Medicine 15(11): 1157-69, 2009.


(Crédito da imagem de abertura: Revista Galileu)

Segunda-feira, Janeiro 31, 2011

Viagens por aí...

Saudades de viajar...

Travel Map
I've been to 45 cities in 11 countries
Asia
China: Shenyang
Japan: Asahikawa
Japan: Chitose
Japan: Hakodate
Japan: Himeji
Japan: Hiroshima
Japan: Kanazawa
Japan: Kobe
Japan: Kyoto
Japan: Matsushima
Japan: Miyajima
Japan: Nikko
Japan: Nonoichi
Japan: Obihiro
Japan: Osaka
Japan: Sapporo
Japan: Sendai
Japan: Tokyo
Japan: Tomakomai
Japan: Wakkanai
South Korea: Seoul
Europe
Austria: Seggauberg
Italy: Pompei
Italy: Sorrento
Spain: Barcelona
North America
Canada: Vancouver
United States: East Lansing
Oceania
Guam: Guam
South America
Brazil: Araxa
Brazil: Diamantina
Brazil: Guarapari
Brazil: Manaus
Brazil: Niteroi
Brazil: Ouro Preto
Brazil: Sabara
Brazil: Sao Paulo
Brazil: Sete Lagoas
Brazil: Varginha

Quinta-feira, Janeiro 20, 2011

Discussões sobre vacinas (last update: 31/01/2010)

Recentemente tenho trocado mensagens com um amigo sobre a questão de vacinações infantis, particularmente nos primeiros meses de vida do bebê. Este amigo se diz preocupado com a quantidade de vacinas dadas a crianças tão jovens, aparentemente convencido pelos argumentos - falaciosos - do tipo "too many, too soon". Não o culpo, o movimento anti-vacinação tende a ser bom em propaganda na exata proporção em que são ruins em ciência, e para muitos pais as táticas de amedrontamento utilizadas por picaretas deste tipo podem ser bastante convincentes.

De qualquer forma, achei que seria interessante compartilhar com vocês esta discussão. Está em inglês, mas tenho certeza que meus cultos, distintos e praticamente inexistentes leitores não se importarão.

A discussão toda começou quando coloquei a seguinte imagem no meu perfil do Facebook:



A discussão que se seguiu é reproduzida abaixo, na íntegra (reduzi os links para não avacalhar o layout do blog):


05/01/2011, JH: Nice,relevant.... hmm what age would you vaccinate your child at?


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05/01/2011, Felipe Campelo: Since I am no doctor, I will follow the guidelines from the Brazilian Ministry of Health. Each country has its own vaccination schedule (which tends to be pretty similar for most of Europe and the Americas), but it usually starts at around 2 or 3-months of age. There are good reasons for this, as explained in the NHS page on immunisation:

http://goo.gl/xoL8T

For the UK schedule, take a look at:

http://goo.gl/6ueSM
http://goo.gl/XmfEn


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05/01/2011, JH: What if i told you Americans (USA) dont vaccinate children under the age of 6 months. Would you question why there is a variation between countries (even though you are not a doctor)?


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05/01/2011, Felipe Campelo: I would say that at least one vaccine (Hep B) is recommended on the U.S. starting on the first month of life, and while others are recommended after the sixth month, the minimum vaccination age there is pretty much in line with the NHS:

http://goo.gl/HKxlD

Regarding the differences on vaccination schedules between countries, I suppose they are more a function of policy and public acceptance than of the science behind it, particularly because the ages in one country tend to fall within the recommended range of the other.

How about you, why do you think there are such differences?


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06/01/2011, RCL: A lot of whatever is policy regulated is done with critical detachment from the science that matters...its everywhere...even in fields such a health, where one would think things are regulated with a certain imperative to generate a state of certainty.


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17/01/2011, Felipe Campelo: Updated U.S. vaccination schedule (2010):

http://goo.gl/j0PZa

Also, check the http://www.immunizenow.org/ website, you can find lots of links there. About your concerns on the age of immunization, they looked a bit like those made on the "Too many, too soon" front. You can find some info about that on:

http://goo.gl/MT0HA


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18/01/2011, JH: My main problem is the apparent weakness in establishing an upper limit in terms of the number simultaneous vaccinations an under 6 month old child can cope with. The papers I have found all reference the following paper, which claims a child could handle 10 000 simulataneous vectors, but does so using an order of magnitude analysis. Any comments on the "DO VACCINES "OVERWHELM" THE IMMUNE SYSTEM?" section?
Addressing Parents’ Concerns: Do Multiple Vaccines Overwhelm or Weaken the Infant’s Immune System? PEDIATRICS Vol. 109 No. 1 January 2002, pp. 124-129



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20/01/2011, Felipe Campelo: The main thing is, babies - and people in general - are exposed to antigens *all the time*. Every time a baby takes her hand (or anything) to her mouth, every breath she takes, every time she feeds, she's presenting her immune system with hundreds or thousands of antigens - and that's a good thing, because the protection she gets from the mother's antibodies (acquired by breastfeeding) doesn't last very long, and she needs to prime her adaptive immune system with the most common antigens found in her environment.

While the delivery system of a vaccine is more dramatic - we're all nervous at the sight of a needle - the antigens present in the shot are no different to the immune system than any other antigen - all the B-cells see are protein patterns, no matter the origin. And there's really no way on Earth that a dozen "extra" antigens would make any difference in terms of overwhelming an immune system that is already dealing very successfully with a few thousand antigens every day.

One can even argue that vaccination is a lot safer than any other form of antigen presentation: unlike the stuff present in the local environment of the baby (no matter how clean it is), vaccine ingredients are all known and tested for safety, the antigen itself is composed of fragments of dead, or at least very attenuated microorganisms (which can't provoke the disease), etc.

Regarding the paper on "Pediatrics", I agree with you that doing an order-of-magnitude analysis means looking at the "best-case scenario" - and we engineers hate best-case analyses! But in any case, even if they are wrong by three orders of magnitude, one would still be pretty safe with 10 vectors at once. And that's not even what happens! The early childhood vaccination schedule recommends about 10 vectors over the first 6 months of life - which leaves plenty of time for the immune system to mount the immune response, acquire memory of the antigens presented, and get back to normal serum levels of antibodies.

For a quick look at an immune response curve: http://goo.gl/jpYhI

For more information, I find Ivan Roitt's "Essential Immunology" quite useful. It's a textbook on the topic, so it can get rather technical at times, but I find it easier to read than the other one I have here (Maurice Gorman's "Handbook of Human Immunology").

Oh, and here are links to two articles I find quite interesting:

http://theness.com/neurologicablog/?p=1976
http://www.sciencebasedmedicine.org/?p=289

Cheers,
Felipe "hug me, I'm vaccinated" Campelo


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20/01/2011, JH: @Campelo. Hi man, I was looking forward to your reply and you didn't disappoint. ;).
I was happy you could see my objections to basing policy on order of magnitude analysis.

From the paper; for reference:
"A more practical way to determine the diversity of the immune response would be to estimate the number of vaccines to which a child could respond at one time. If we assume that
1) approximately 10 ng/mL of antibody is likely to be an effective concentration of antibody per epitope (an immunologically distinct region of a protein or polysaccharide)
2) generation of 10 ng/mL requires approximately 10e3 B-cells per mL)
3) a single B-cell clone takes about 1 week to reach the 10e3 progeny B-cells required to secrete 10 ng/mL of antibody (therefore, vaccine-epitope-specific immune responses found about 1 week after immunization can be generated initially from a single B-cell clone per mL),
4) each vaccine contains approximately 100 antigens and 10 epitopes per antigen (ie, 10e3 epitopes), and
5) approximately 10e7 B cells are present per mL of circulating blood, then each infant would have the theoretical capacity to respond to about 10 000 vaccines at any one time (obtained by dividing 10e7 B cells per mL by 10e3 epitopes per vaccine)."

So are they saying that in theory due to the number of naive(?) B cells and Helper T cells in 1 ml of blood, given a week of doing nothing else, the B cells will produce sufficient antibodies for 10 000 distinct non replicating vaccines each containing 1000 epitopes? Find me simulation/experimental validification please...



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21/01/2011, GM: Interessante. Não sou engenheiro mas darei meu palpite de biólogo anti vacinas em excesso. Faltou citar o pior problema de vacinações "desnecessárias" - chance de doenças autoimunes e reversão ao fenótipo selvagem de vacinas atenuadas.


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21/01/2011, Felipe Campelo: Permita-me então oferecer uma perspectiva diferente aos seus palpites de biólogo:

1) Doenças auto-imunes (DAIs): Suponho que você esteja se referindo à Síndrome de Guillain–Barré - que normalmente é a reação auto-imune mais citada (http://goo.gl/j5589 ; http://goo.gl/db0WP) e outras do gênero. Neste caso, é preciso considerar algumas coisas ao se utilizar este argumento: por um lado, deve-se considerar a taxa de ocorrência destas doenças associadas à vacinação, e suas potenciais consequências; por outro, a gravidade da doença prevenida pela vacina, e sua probabilidade de ocorrência. A evidência que consegui encontrar sugere que a indução de DAIs por efeitos de vacinas é extremamente rara, muito inferior a taxas de ocorrência decorrentes das doenças que a vacina previniria (ver http://goo.gl/zuV22 ; http://goo.gl/bCtsi para estudos relativos a influenza, e references therein para outros estudos). Meu ponto neste caso é: os ganhos superam demais os riscos, a menos que a doença seja extremamente rara ou extremamente branda. Um review bacana do tema pode ser encontrado em http://goo.gl/5WVtu.

2) Reversão ao fenótipo selvagem de vacinas atenuadas: neste caso, acredito que o único exemplo que eu conheça seja o do vírus da polio na Nigéria, cuja descendentes da cepa da vacina andam infectando gente. Neste caso específico, o problema ocorreu por uma conjunção de fatores: uma população com grande incidência de imunodeprimidos, e com taxa de vacinação muito abaixo do necessário para se obter imunidade de grupo. Um comentário bacana sobre este caso pode ser encontrado aqui: http://goo.gl/usiy9

De qualquer forma, este segundo problema tem que ser considerado na mesma luz do primeiro: chance de dar merda e intensidade da mesma X benefícios. Confesso não ter tanta informação assim sobre este tipo de problema, então se você puder dar uma esclarecida (em relação a riscos de ocorrência, etc) eu ficaria bastante agradecido.

Voltando ao ponto original do post, entretanto, perceba que o que foi discutido não é a vacinação excessiva, mas sim a vacinação infantil de acordo com o calendário utilizado na maioria dos países. Para este caso, não tenho certeza se as suas duas ressalvas se aplicam - as doenças prevenidas são diversas ordens de magnitude mais sérias e mais prováveis que quaisquer possíveis complicações.


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25/01/2011, JPH:ok.... Here is support for the "too soon" hypothesis being correct.

"Immune immaturity affects infant antibody responses in spite of the repeat administration of multiple vaccine doses at a few weeks intervals. Antibody responses to three doses of tetanus–diphtheria–pertussis or Hib conjugate vaccines are lower following a 2–3–4 than a 2–4–6 or 3–5–12 months schedule [18,19]. Using the rapid schedules, a greater proportion of infants fail to respond to relatively weak vaccine antigens, such as diphtheria toxoid [18,19]. In Sweden, a lower overall risk of pertussis disease was measured when the third dose was delayed in the second year of life (i.e. following a 3–5–12 versus a 2–4–6 months schedule [20]." - Siegrist,CA., Neonatal and early life vaccinology Vaccine 19 (2001) 3331–3346

Balls in your court. ;)



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31/01/2011, Felipe Campelo: I have been looking at this in what little spare time I have, and so far I've come across a number of studies (some of them cite the 2001 paper you mentioned) that do not necessarily agree with the statement above. For instance:

"Our understanding of neonatal immunity has developed in a step-wise manner. Initial assumptions were that neonates were immature or immunodeficient. This supposition was replaced by the idea that neonates are immunodeviant. Subsequently, demonstrations that neonates are competent to mount mature responses raised the possibility that simply smaller size or immune-cell numbers could account fully for the differences between neonates and adults. However, it is becoming increasingly clear that both human and mouse neonates mount various responses, ranging from deficient or deviant to fully mature, depending on the conditions of antigen exposure. This flexibility of responsiveness might have important functions in protecting the developing organism from potentially dangerous inflammatory situations, at the same time as providing protection against potentially life-threatening infections (Box 2)." - (Nature Reviews Immunology - http://goo.gl/LmxJU)

"The classical paradigm that newborns have incompetent T lymphocytes developing only weak or even tolerogenic responses should clearly be reconsidered. The observation that mature cellular immune responses can be developed in early life suggests that under appropriate conditions of stimulation neonatal T lymphocytes can be
instructed to fight intracellular pathogens (Fig. 1). We can therefore hope that the identification of molecular pathways leading to DC and T cell activation in human neonates will lead to the development of new vaccines eliciting efficient and safe protective responses against these agents early after birth." - (Clinical and Experimental Immunology - http://goo.gl/83yub)

Other works presented conclusions that accelerated vaccination schedules could have an even higher effectiveness for some vaccines, e.g.:

"an accelerated vaccination course against HBV (three doses at 10 day intervals) elicited protective levels of anti-HBs antibodies more rapidly than a classic course (three doses at zero, one, and 6 months) and without a difference in the rate of seroprotection after 1 year." - (Pediatrics International - http://goo.gl/Gu9o3)

The thing is, one paper does not a medical discovery make: replication and improvement are an essential part of of science in general (and specially of medical science). One must take a look into the literature as a whole, to see where the consensus of evidence is building. I am still searching for a comprehensive review or meta-analysis of the data, but haven't had much time to dig this stuff. In any case, the "too many" part of the hypothesis does not seem to hold much water (even if we discard the order of magnitude analysis of that previous paper, the immunology is pretty clear on the subject - see, e.g., http://goo.gl/0s0Il ; http://goo.gl/INBdM; http://goo.gl/xl4uH). The "too soon" could be partially true for some vaccines (if you interpret it as "sooner than optimal"), and partially false for others (if you follow the same interpretation), but I don't think either the lower or the upper ends of the recommended vaccination age are out of the confidence interval for optimality.

In any case, I personally think it is pointless (and kind of arrogant) for me to try to outthink the whole medical research community in their field of expertise - these guys make a living out of studying this stuff, and tend to be pretty good it. I have contacted two of the authors of the Science-Based Medicine collaboration (http://www.sciencebasedmedicine.org/) who are also practicing physicians and researchers (http://goo.gl/rMUeb ; http://goo.gl/ftbxV), and asked if they could kindly point to relevant technical literature on the subject. I'll let you know when I get more info.

Cheers from a father-to-be (coming August - yeeeah :-D )
Felipe