Neste episódio do Skeptoid, Brian Dunning assume uma posição controversa e defende o direito de pessoas venderem serviços paranormais, mesmo que não acreditem neles - desde que ninguém saia ferido ou prejudicado. Embora eu concorde com vários dos argumentos expostos, não posso deixar de discordar em um ponto fundamental: ao apregoar ou vender serviços paranormais, o cético (e, da mesma forma, o crente) contribui, ainda que ligeiramente, para a manutenção de uma mentalidade social na qual aceita-se a existência de fenômenos paranormais e curas da Nova Era. O caso é particularmente sério no caso da chamada “medicina“ alternativa. Certamente, se eu tivesse que escolher entre um maluco que realmente acredita que desbalanços do Chi ou subluxações da coluna são a origem de todas as doenças e um cético bem informado que está apenas ganhando dinheiro oferecendo um placebão para quem quer comprar, mas que ativamente recomenda que seus pacientes procurem ajuda médica séria quando detecta algum problema mais grave, eu escolheria o segundo sem pensar. Mas mesmo o cético bem intencionado poderia, por falta de treinamento, deixar de perceber sintomas mais sutis que um médico ou psiquiatra perceberia. A aura de credibilidade emprestada ao hocus-pocus alternativo pode, sim, ser danosa, e eu não me sentiria confortável participando deste tipo de farsa (e por farsa aqui não me refiro apenas ao cético fingindo ter superpoderes, mas também aos que realmente acreditam que os possuem!)
Skeptoid #04
Ethics of Peddling the Paranormal
Publicado originalmente em 24 de Outubro de 2006, por Brian Dunning
Original em Inglês: http://skeptoid.com/episodes/4003
Traduzido para o Português em 15 de Julho de 2010, por Felipe Campelo.
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A Ética de se Vender Idéias Paranormais
É direito que não-crentes espalhem idéias paranormais?
Hoje eu assumo uma posição contrária à maioria da comunidade cética, e me revelo, surpreendentemente, geralmente a favor daqueles que vendem idéias paranormais, em casos onde ninguém se machuca.
Em nossa sociedade, as pessoas tem o direito de comprar coisas que elas queiram e que não tragam nenhum benefício, ou até mesmo coisas prejudiciais. Cigarros, álcool, cosméticos caros contendo ingredientes questionáveis, como “extrato de oleandro“ - estes são apenas uns poucos exemplos. É um país livre, e a maioria das pessoas deseja estas coisas. Enquanto nação, nós decidimos que as preferências de alguns poucos não deveriam restringir as liberdades das massas. Eu acredito que a maioria dos céticos concordariam: serviços paranormais, sejam eles quiromancia ou homeopatia, tem todo o direito à existência. Eu espero que meus filhos não se tornem consumidores, mas eu acho que a educação é uma forma melhor de lidar com isto do que a intervenção governamental.
Dado que nós concordamos que estas coisas tem o direito de existir, e que a maioria das pessoas devem ter a liberdade de tomar suas próprias decisões, eu pessoalmente não teria problemas em começar a vender minhas próprias predições paranormais. Eu adoraria conseguir fazer uma leitura fria eficiente. Meu sonho é fundar uma religião e me tornar fabulosamente rico, com os consumidores satisfeitos do mundo. Estas pessoas já são crentes, e suas opiniões dificilmente seriam afetadas por alguns céticos. Eles vão pagar por este tipo de serviço de qualquer forma, e se não for de mim, eles vão atrás do vidente [1] mais próximo. Eu poderia fazer um bom trabalho. Eu poderia ser absolutamente convincente e cobrar para dizer a eles exatamente o que gostariam de ouvir. Na verdade, a experiência do consumidor seria exatamente idêntica à que ele receberia do vidente “de verdade“. Nós concordamos que consumidores tem o direito de gastar seu dinheiro em qualquer coisa que eles queiram. Nós concordamos que o consumidor está sendo enganado quando ele compra qualquer coisa sobrenatural, independente de quem está vendendo. Nós concordamos ainda que nada neste mundo poderia convencer este consumidor que ele está sendo enganado. Se somarmos tudo isto, temos um consumidor que insiste em ser ludibriado, e que tem o direito de comprar esta enganação. Eu acho perfeitamente aceitável - e perfeitamente ético - que eu, mesmo sendo um cético, possa me beneficiar e vender o mesmo produto.
Se você é como a maioria das pessoas, você está discordando de mim. Você provavelmente está dizendo que eu estou sendo desonesto e mentindo para o consumidor, enquanto que os paranormais de verdade (mesmo que os poderes destes não sejam mais reais que os meus) está pelo menos sendo honesto. Errado, mas honesto. Nós estamos vendendo a mesma coisa, e dando ao consumidor a mesma experiência satisfatória. Eu vejo isto da mesma forma que um gerente de supermercado que permite a venda de cigarros em sua loja. Ele sabe que aquilo faz mal, mas as pessoas querem aquilo, e não há nada que se possa fazer a respeito. Ainda assim, eu nunca vejo meus críticos dizendo nada sobre o gerente de supermercado.
O melhor argumento que eu já ouvi contra a minha posição é que eu estou roubando a dignidade do consumidor, tirando deles o direito de escolha. Eu estou sendo dissimulado, dizendo a ele que eu sou outra pessoa, enquanto que meu competidor, o vidente mais próximo, está sendo honesto ao apregoar seus poderes psíquicos. O consumidor escolhe ir a um paranormal. Eu estou mentindo para ele, o vidente não. Eu compreendo este argumento, e eu concordo que ele seja verdadeiro. Mas a razão pela qual este argumento não me convence é que ele é irrelevante - o resultado é exatamente o mesmo. Minhas crenças pessoais não tem nenhuma influência na transação (assim como no caso do gerente de supermercado), e focar esta questão é ignorar o elefante no quarto: a pessoa quer comprar nonsense. Os sentimentos ou opiniões da pessoa vendendo este nonsense simplesmente não entram na equação.
Bem, agora é a hora de lidar com a questão que provavelmente está na ponta da sua língua: e nos casos onde a pseudociência sendo vendida é danosa, ou substitui cuidados médicos ou psiquiátricos essenciais? Eu disse no início: eu sou geralmente a favor daqueles que vendem idéias paranormais, em casos onde ninguém se machuca. E esta é a grande maioria dos casos. E quanto às exceções?
Eis um caso hipotético no qual o consumidore realmente necessita de cuidados médicos: ele tem um câncer tratável, mas prefere me pagar por um “toque curador“. Eu te garanto que eu não sou completamente estúpido, irresponsável, e nem estou em nenhuma situação onde eu precise desesperadamente de dinheiro. Neste caso, eu faria a cara mais “Nova Era“ possível, e explicaria para a pessoa em termos “novaerísticos“ - que, espero, ela entenderia e aceitaria - que a cura da Nova Era somente ajudaria se associada a um tratamento convencional para o câncer. Eu sou esperto o suficiente para saber que se eu simplesmente virar para a pessoa e disser que esta coisa de Nova Era é apenas uma fraude e que ela deveria ir a um médico, ela apenas me acharia um descrente e não me daria ouvidos, e ao invés de ir ao médico acabaria por se dirigir ao paranormal mais próximo. E este é o ponto no qual os meus serviços paranormais são melhores - infinitamente melhores - que os daqueles oferecidos pelos paranormais “reais“, que realmente acreditam que a cura por toque deveria ser usada ao invés de medicina de verdade. E as pessoas me dizem que eu sou anti-ético. O paranormal “real“ deste caso deveria era ser preso.
O mesmo acontece quando o consumidor necessita de ajuda psiquiátrica. Digamos que a mãe de alguém tenha morrido, e que por alguma razão esta pessoa tenha desenvolvido problemas psicológicos reais, e queira conversar com sua falecida mãe. Não se trata de alguém que queira saber o resultado da corrida de cavalos de amanhã. esta pessoa provavelmente precisa de ajuda muito mais profissional do que as minhas supostas habilidades. Neste caso, eu diminuiria as luzes, interpretar a sessão espírita mais convincente possível, e dizer à pessoa que sua mãe se preocupa com ela, e que implora que procure ajuda profissional. Se a coisa é dita desta forma, a pessoa geralmente escuta o conselho, e daí prá frente o médico pode lidar com a pessoa. Se, por outro lado, utilizarmos a abordagem cética usual e explicarmos para ela que esta idéia de se falar com os mortos é uma farsa e que apenas um médico de verdade poderá ajudá-la, a pessoa não dará ouvidos e ao invés disto irá ao paranormal mais próximo, e seus problemas continuarão sem solução. Novamente, meus serviços são bons simplesmente porque eles conduzirão a uma solução profissional: os serviços do paranormal “real“ são ruins, porque perpetuam o problema.
Eu defendo que serviços paranormais são mais bem efetuados por pessoas que entendem suas limitações, ao invés de por aqueles que acreditam ser capazes de fazer algo que não são. Na verdade, se os serviços paranormais fossem regulamentados, esta seria a lei. Imagine o quão melhores estariam os crentes se serviços paranormais os guiasse para profissionais treinados para lidar com seus problemas sempre que isto fosse necessário.
Estes casos são, entretanto, uma minoria. Na maior parte das vezes as pessoas que compram serviços paranormais - sejam eles seminários de adoração à deusa, homeopatia, acupuntura, ou leituras paranormais - estão comprando serviços absolutamente inócuos que P.T. Barnum [2] venderia sem pensar duas vezes. Se dinheiro está trocando de mãos, e adultos responsáveis estão conscientes do que estão fazendo, recebem exatamente o que desejam e estão completamente satisfeitos com os resultados,, eu não teria problema algum em participar desta transação, e de lucrar com ela. O consumidor está feliz, o vendedor está feliz, ninguém saiu ferido, e todos os envolvidos saem satisfeitos. É a escolha deles. Se eles não tem um problema com isto, porque você deveria ter? Você não tem nada a ver com isto.
--- Notas do Tradutor: --
[1] Neste episódio utilizei alternadamente os termos “paranormal“ e “vidente“ como traduções para “psychic“, dependento do contexto. A tradução direta, “psíquico“, embora correta, não reflete bem os termos de uso corrente no Brasil.
[2] http://en.wikipedia.org/wiki/P._T._Barnum
--- Referências fornecidas pelo autor ---
Bok, Sissela, Lying: Moral Choice in Public and Private Life. New York: Vintage Books, 1999. 203-219.
Farley, Tim. "What's the Harm?" in What's the Harm? Tim Farley, 18 Jan. 2009. Web. 18 Jan. 2009. http://whatstheharm.net/
Irwin, H, The Psychology of Paranormal Belief: A Researcher's Handbook. Hertfordshire: University of Hertfordshire Press, 2009.
Kelly, Lynne, The Skeptic's Guide to the Paranormal. New York: Thundermouth Press, 2004. 34-35.
Randi, James, The Mask of Nostradamus: The Prophecies of the World's Most Famous Seer. Amherst, NY: Prometheus Books, 1993. 140-142.
Smith, Jonathan, Pseudoscience and Extraordinary Claims of the Paranormal. West Sussex, U.K.: John Wiley & Sons, Ltd., 2010. 21-46.
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