Um colega me pediu para comentar um artigo do José Reis Chavez, publicado ontem no jornal O Tempo. Para não ter problemas com direitos autorais não vou replicar o artigo aqui, dêem um pulo lá no link, leiam, e depois voltem para cá!
Abaixo, segue uma reprodução da resposta que enviei. Espero que gostem (e comentem! Este blog está triste porque ninguém manda feedback!)
Interessante o artigo, mas tenho alguns comentários a respeito dos temas abordados. Em primeiro lugar, há de se separar as coisas: a teoria da evolução não se refere à criação da vida ou do cosmos - a primeira é o domínio das teorias sobre abiogênese, a segunda da cosmogonia. Neste sentido, colocar a evolução em contraste com a criação do universo é uma falácia, dado que esta se preocupa com a dinâmica de sistemas biológicos uma vez que estes existem, e não com os mecanismos que iniciaram o processo. Seria como descartar a teoria eletromagnética por não explicar a gravidade: a teoria não se propõe a isto, e a comparação é espúria.
Ainda neste tópico, deve-se lembrar que a oposição dos criacionistas aos fatos da evolução das espécies (comprovados, diga-se de passagem, por múltiplas linhas de evidência independentes - registro fóssil, evidência genética, observação laboratorial, etc.) é baseada principalmente na interpretação literalista dos textos religiosos (sejam eles quais forem). Criacionistas das religiões abraâmicas (uma vez que o mito de criação é o mesmo para cristãos, judeus e muçulmanos) tendem a rejeitar as evidências da evolução por julgá-las incompatíveis com a letra de suas escrituras.
O tipo de criacionismo advogado no artigo, um criacionismo deísta, tende a ser filosoficamente mais seguro, no sentido de não-falsificabilidade. Cientistas que crêem em alguma divindade (o que não é o caso deste que vos fala) tendem a seguir este tipo de idéia: uma divindade que estabeleceu as condições iniciais e depois se diluiu no cosmos ou "saiu de férias". Este tipo de crença é compatível com qualquer nova descoberta da ciência e é, consequentemente, não-falsificável, estando fora dos limites da análise científica. Cientistas com menos tendência à dissonância cognitiva tendem a ter posições filosóficas majoritariamente (mas nem de longe absolutamente) no espectro do deísmo, agnosticismo deísta ou agnosticismo ateísta, e não encontram aí qualquer conflito com o sistema de pensamento necessário à investigação sistemática e adogmática da realidade.
Considerando, por outro lado, o princípio da parcimônia de Occam, Popper, Laplace e companhia, argumentos baseados na existência de uma divindade primordial (ou seja, argumentos deístas) incorporam uma nova premissa gigante em sua construção - a saber, a existência de um ser de complexidade grande o suficiente para criar um universo - que torna modelos deístas (ou teístas) muito mais complexos do que a explicação materialista, e por isto mesmo menos provável considerando o mesmo corpo de dados. Pode-se resumir esta posição como "se o início espontâneo do universo é improvável, a existência de um ser com complexidade infinitamente superior de modo a ser capaz de criar um universo é ordens de magnitude menos plausível". De um ponto de vista científico, não faz sentido escolher uma explicação mais complicada dado que uma mais simples tem o mesmo poder explanatório e requer menos premissas.
É claro que cada pessoa tem, como direito inalienável, a liberdade de acreditar no que quiser, e eu seria a última pessoa do planeta a dizer a qualquer um que ele ou ela não pode acreditar nisto ou naquilo (embora haja ocasiões em que as manifestações da crença alheia me sejam perturbadoras). De um ponto de vista científico e filosófico, entretanto, posicionar uma divindade nas lacunas do nosso conhecimento atual é uma proposição fraca na melhor das hipóteses. De qualquer forma, acredito que concordemos que tentar incluir qualquer menção a proposições religiosas sobre a criação da vida, o universo e tudo mais em cursos de ciência (que é um dos pontos-chave no debate criacionista nos EUA) é desonesto e contraproducente.
Cordialmente,
Felipe
Terça-feira, Março 01, 2011
Evolução e Cosmogonia - confusões
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
5 comments:
O que William diria sobre o uso de seu princípio para invalidar a existência de Deus, já que ele era um monge franciscano devoto?
Pela extensa quantidade de informações que pesquisei sobre o mesmo no mestrado, creio que ele provavelmente ressaltaria que a navalha não é uma ferramenta que estabelece provas.
Vale ressaltar que muitos pesquisadores não gostam da maneira como outros pesquisadores a usam para eliminar teorias.
E na minha opinião a religião (criacionismo) e a ciência (evolução) podem conviver juntas, apesar que eu e outros cristãos somos contra o ensino do criacionismo.
Como exemplo eu cito o Einstein, que era judeu, e que também acreditava em modelos simples apesar do seu modelo da relatividade não ser simples.
Replicando o restante da conversa que rolou no Buzz:
Rodrigo,
Felipe Campelo (17:54) - Acho que você me entendeu mal: eu não argumentei que o princípio da parcimônia pode ser usado para provar que algum deus (qualquer que seja ele - existem milhares de definições, suponho que você esteja se referindo ao judaico-cristão) não existe. Se você estudou bem a sua filosofia, sabe que é logicamente impossível provar a inexistência de algo. Minha argumentação é rigorosamente em linha com a famosa navalha: na ausência de evidências para a distinção entre dois modelos que explicam igualmente bem um dado fenômeno, aquele que requer o menor número de novas premissas deve ser descartado. Dê-me evidências da hipótese divina, e terei prazer em reconsiderar minha opinião. Quantos religiosos diriam o mesmo?
Em tempo: Einstein era um judeu étnico, mas deixou muito claro em diversos pontos que não acreditava no deus judaico (como declarado, por exemplo, em sua carta a Eric Gutkind - http://www.relativitybook.com/resources/Einstein_religion.html). E o modelo de relatividade, simples ou não, é o mais bem sustentado pela evidência. Se houvesse outro com igual poder explanatório e menor complexidade, com certeza teria sido adotado - pelo menos até que experimentos comparativos fossem utilizados para discriminar os modelos.
Que fique bastante claro que não estou aqui atacando suas crenças: como disse em meu texto anterior, é um direito seu professar e aderir a qualquer sistema que te faça feliz, e eu brigaria com qualquer um que dissesse o contrário. Mas a mesma liberdade me permite apontar inconsistências que encontro em qualquer sistema de crenças - inclusive o meu próprio, uma vez que eu não fui sempre ateu (filosoficamente, um agnóstico ateísta - ver figurinha do post ;-) ), e só cheguei à minha atual posição filosófica depois de muita autocrítica. :)
Abração,
---------
Felipe Campelo (18:51) - Antes que eu me esqueça: eu acho que a maior e mais eficaz oposição ao ensino de criacionismo deve vir (e talvez em muitos casos já venha) de cristãos moderados. Vocês conseguem argumentar de um ponto de vista interno, e tendem a ser ouvidos com muito mais facilidade pela comunidade cristã do que ateus rabugentos como eu ;-) Neste ponto acho que nossos objetivos se alinham, embora o embasamento filosófico seja diferente: advogar um ensino de ciências sólido e baseado em evidências físicas, e manter o diálogo metafísico de cada um em casa ou na igreja, templo, sinagoga, mesquita ou congregação genérica.
Abração,
----
Rodrigo Leite Durães - As críticas ao ensino de criacionismo, realmente são dos dois lados, (veja: http://pt.wikipedia.org/wiki/Criacionismo), "Críticas": "Cientifícas", "Cristãs") apesar de muitos falarem mal da Wikipedia, esse texto é muito bom.
Continuando a reproduzir as conversas (preciso de um app que integre os comentários do Buzz aqui no Blogger... alguém conhece? )
Rodrigo Leite Durães - Quanto a Einstein, em algum momento da sua vida ele foi judeu, depois deixou de ser, eu acho que por causa da Física. Mas ele acreditava em Deus. (veja: http://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Einstein#Pol.C3.ADtica_e_religi.C3.A3o , "Política e religião"
e/ou
http://en.wikipedia.org/wiki/Albert_Einstein#Political_and_religious_views)
Abraço,
---------
Felipe Campelo 08:49
Olá Rodrigo,
Não sei se você leu direito as citações na referência que me enviou (Wikipedia em inglês), mas elas não suportam o ponto que você está tentando defender. Reproduzo aqui as duas:
"You may call me an agnostic... I do not share the crusading spirit of the professional atheist whose fervor is mostly due to a painful act of liberation from the fetters of religious indoctrination received in youth. I prefer an attitude of humility corresponding to the weakness of our intellectual understanding of nature and of our own being."
"It seems to me that the idea of a personal God is an anthropological concept which I cannot take seriously. I feel also not able to imagine some will or goal outside the human sphere. My views are near those of Spinoza: admiration for the beauty of and belief in the logical simplicity of the order which we can grasp humbly and only imperfectly. I believe that we have to content ourselves with our imperfect knowledge and understanding and treat values and moral obligations as a purely human problem—the most important of all human problems."
Nas palavras do próprio, ele seria um agnóstico, que não levava a sério a idéia de qualquer uma divindade pessoal (no sentido de intercessora - isto é explicado em uma outra carta dele, não lembro direito qual). O suposto deus de Einstein (o 'deus de Spinoza') não tem a mais remota similaridade com qualquer divindade que você reconheceria como tal - é a soma das leis e da elegância do universo, uma espécie de panteísmo (http://en.wikipedia.org/wiki/Pantheism). Como o Sagan coloca de forma excelente:
"Se, com esse conceito, você se referir a um conjunto de leis físicas que regem o Universo, então claramente existe um Deus. Só que Ele é emocionalmente frustrante: afinal, não faz muito sentido rezar para a lei da gravidade!"
Uma outra possibilidade levantada era a que as ideias do cara eram mais Pandeístas (http://en.wikipedia.org/wiki/Pandeism), o que o colocaria na turma do "deus(es) saiu(ram) de férias depois de criar o universo". Novamente, não acho que é exatamente o conceito de deus que você, ou a maioria das pessoas, adota.
De qualquer forma, esta discussão sobre as crenças (ou ausência das mesmas) do velho e bom Albert é fútil. Embora o cara seja um ícone da ciência, e da humanidade como um todo, isto não lhe confere infalibilidade ou autoridade suprema sobre qualquer assunto, particularmente em tópicos fora de sua área de especialização. Einstein podia ter sido induísta, xamanista ou ateu, sem que isto fosse nenhuma evidência a favor deste ou daquele ponto. Assim como em todo o resto, as opiniões dele em qualquer assunto são dignas de reprodução em direta proporção à evidência que as embasa. Todo o resto é opinião, seja ela a favor do meu ou do seu ponto de vista.;-)
Abração,
MUITO BOM! Parabéns pelo texto!
Acabei de descobrir seu blog, Felipe, e já percebi que vou fazer visitas aqui com frequência. Parabéns e abraço.
Enviar um comentário