Quarta-feira, Junho 01, 2011

Celulares e Câncer - Artigo sensacionalista do Meio Bit

Recentemente um colega me chamou a atenção para um artigo do blog de tecnologia Meio Bit descrevendo, em termos apocalípticos, uma interpretação do press release recentemente publicado pela International Agency for Research on Cancer. O tom do artigo, e principalmente sua conclusão sensacionalista ("O celular é hoje, provavelmente, o novo cigarro.") levantaram algumas das usuais red flags na minha cabeça de cético rabugento. Um pouquinho de pesquisa e rastreamento de fontes acabou produzindo o comentário abaixo, que reproduzo aqui para registro:


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Pode ser que tenha algum coelho neste mato, mas lendo a fonte original reparei em algumas qualificações que acho importantes:


"The evidence was reviewed critically, and overall evaluated as being limited2 among users of wireless telephones for glioma and acoustic neuroma, and inadequate3 to draw conclusions for other types of cancers"


Definições associadas:

2 - "'Limited evidence of carcinogenicity': A positive association has been observed between exposure to the agent and cancer for which a causal interpretation is considered by the Working Group to be credible, but chance, bias or confounding could not be ruled out with reasonable confidence."

3 - "'Inadequate evidence of carcinogenicity': The available studies are of insufficient quality, consistency or statistical power to permit a conclusion regarding the presence or absence of a causal association between exposure and cancer, or no data on cancer in humans are available"


Novamente, pode até ser que exista alguma relação causal, mas a melhor evidência obtida até o momento é insuficiente para derivar quaisquer conclusões definitivas a respeito. Aliando isto ao nível de potência bastante baixo dos celulares atuais e aos resultados de pesquisas que mostram uma elevação de temperatura média ordens de magnitude inferior ao ruído térmico do próprio corpo humano (pergunte ao Ramírez ou à Ana [1-2], eles trabalham com isto já há alguns anos), minha atitude inicial é de ceticismo quanto a esta correlação, pending further evidence to the contrary ;-)

Em tempo, a segunda referência citada pelo artigo do Meio Bit como "participantes do estudo que utilizavam regularmente celulares a mais de 10 anos dobraram a incidência de glioma", na verdade lista apenas os seguintes "key facts":

- Mobile phone use is ubiquitous with an estimated 4.6 billion subscriptions globally.
- To date, no adverse health effects have been established for mobile phone use.
- Studies are ongoing to assess potential long-term effects of mobile phone use.
- There is an increased risk of road traffic injuries when drivers use mobile phones (either handheld or "hands-free") while driving.



Nada de aumentos em quaisquer tipos de câncer. Na verdade, a única menção a glioma neste segundo artigo diz exatamente o contrário do sugerido no artigo sensacionalista do Meio Bit:

"The international pooled analysis of data gathered from 13 participating countries found no increased risk of glioma or meningioma with mobile phone use of more than 10 years. There are some indications of an increased risk of glioma for those who reported the highest 10% of cumulative hours of cell phone use, although there was no consistent trend of increasing risk with greater duration of use. Researchers concluded that biases and errors limit the strength of these conclusions and prevent a causal interpretation."


Abração,
Felipe



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[1] Ana de Oliveira Rodrigues, "Caracterização da Taxa de Absorção Específica e do Aumento de Temperatura Induzidos por Telefones Celulares na Cabeça Humana" 2003. Tese (Doutorado em Engenharia Elétrica) - Universidade Federal de Minas Gerais

[2] A.O. rodrigues, L.R. Malta, J.J. Viana, L.O.C. Rodrigues, J.A. Ramírez, "A Head Model for the Calculation of SAR and Temperature Rise Induced by Cellular Phones." IEEE Transactions on Magnetics, v. 44, p. 1446-1449, 2008.

4 comments:

Elite H@rd disse...

Não que eu concorde ou discorde da notícia, mas eu acho que celular x câncer nunca foi investigado como deveria. Agora eu chamo a atenção para esse comentário na notícia: "Ou isso, ou então poderemos todos voltar a investir em fones de ouvido." Pelo que eu sei, os fones de ouvido estão próximos ao cérebro, logo utilizar fones de ouvido iria agravar a chance de desenvolver um tumor, apesar de vários artigos afirmarem o contrário, e ainda que os fones decrementam o campo eletromagnético do celular, ao invés de amplificar este campo, o que eu também acho que deveria ser melhor investigado.

Felipe, o Campelo disse...

Na verdade, tem sido muito estudado sim! algumas referências que podem te interessar:

1) National Cancer Institute / NIH
(http://www.cancer.gov/cancertopics/factsheet/Risk/cellphones) - Bibliografia extensa ao final do press release.

2) Artigo relatando o resultado de uma pesquisa conjunta em 13 países, investigando a correlação entre a prevalência de glioma e meningioma e o uso de celulares (http://goo.gl/0ASmY - "Brain tumour risk in relation to mobile telephone use: Results of the INTERPHONE international case-control study". International Journal of Epidemiology 2010;)

Em relação aos fones de ouvido, há dois aspectos que você não considerou: 1) Intensidade do campo, muito inferior ao dos telefones, e 2) Frequência do campo, também muito inferior: o campo oscila a no máximo 16KHz, se o seu fone for *muito* bom, em contraste com a frequência de microondas (GHz) do celular. De qualquer forma, a intensidade do campo dos celulares atuais é baixa o suficiente para não resultar em nenhum tipo de aquecimento significativo por indução. É mais fácil a sua orelha esquentar por fricção (o que acontece direto) do que o celular alterar a temperatura do seu cérebro.

NightHiker disse...

Felipe, parabéns pelo comentário. Eu tomei conhecimento desse estudo através de uma matéria da Superinteressante (cada vez pior, infelizmente) falando de um aplicativo que desligava as antenas dos aparelhos durante a noite para proteger os usuários da radiação, fui pesquisar informações sobre o estudo para opinar e caí aqui.

Mas o pior é que eu enviei um comentário, bastante crítico mas correto, e ele foi sumariamente apagado, seja pelo autor ou outra pessoa. Ou seja, além de divulgar informações sensacionalistas, a Super ainda censura opiniões contrárias - definitivamente uma postura que não cabe a qualquer publicação que se preze.

Bem, continue praticando o pensamento crítico, algo tão em falta hoje em dia.

Abraço,
NightHiker

Felipe, o Campelo disse...

Caro NightHiker,

Agradeço pelos comentários e pelo interesse no artigo. A Super realmente costumava ser uma revista bacana, mas nos últimos (vários) anos tem se mostrado como um recorte sensacionalista sem muito critério.

Abraços,