Sexta-feira, Dezembro 23, 2011

Crítica à fé versus crítica às organizações.

Muitas vezes as discussões sobre a existência ou não de um deus (qualquer que seja o sabor de preferência do interlocutor) acabam caindo em algumas questões completamente tangenciais:

- Mas você não acha que a religião é uma coisa boa, que mantém a sociedade em ordem?

- Sem a igreja, quem cuidaria dos necessitados?

- Mas você não pode provar que deus não existe!

- Então você odeia deus?

Uma discussão nesta linha ocorreu recentemente no meu Facebook, e resolvi aproveitar as respostas e adaptar algo aqui para o blog.

Antes de mais nada, não há ódio em relação a qualquer deus, apenas descrença. Minha crítica à religião é completamente separada daquela direcionada à hipótese divina, embora em muitos casos as duas acabem sendo confundidas por muita gente no meio da argumentação. A crítica à religião é direcionada a um fenômeno social, enquanto que aquela em relação à ideia de existência de algum deus é baseada na necessidade de evidência proporcional à magnitude de qualquer afirmação objetiva sobre o universo.

Do ponto de vista estritamente filosófico você pode me chamar de agnóstico (no sentido originalmente definido pelo Thomas Huxley), mas na prática penso que a probabilidade de existência divina é tão remota (dada a ausência de evidência de qualquer fenômeno do universo observável requerendo a postulação de uma divindade qualquer) que a atitude na vida diária tende ao ateísmo. Resumindo, eu realmente acho que não existe qualquer coisa sobrenatural (incluindo deuses, macumbas ou leprechauns), mas se você tiver evidências suficientemente fortes eu estou pronto a examina-las. :)

Sobre a questão de "não haver provas de não-existência", recomendo demais a leitura de dois artiguinhos da Wikipedia:

1) Argument from Ignorance

2) Russel's Teapot

Em relação às críticas em relação a religiões organizadas e à igreja católica, um argumento que recebi foi:
"Sobre a tirinha (ver abaixo), sim era um absurdo mas, passou! A igreja já admitiu os seus erros e pediu perdão. Vamos cuidar de problemas ainda não solucionados, como a pedofilia, por exemplo!"




Concordo apenas com uma parte muito pequena desta afirmação: acho sim que devemos focar em problemas que ainda estão acontecendo. Entretanto, não sei se a argumentação de "já passou, pediram desculpas e tá tudo certo" é muito válida.

Considere a seguinte situação baseada em fatos reais (prá não usar o óbvio e nauseante exemplo Godwinesco): o Khmer Rouge torturou, perseguiu, matou e destruiu milhões de vidas no Camboja, até involuntariamente perderem parte do poder em 1979, embora tenham permanecido na ativa até a década de 90. Se amanhã ou depois o um novo lider de um Khmer Vermelho ressurgente, ainda mantendo toda a riqueza acumulada durante o regime prévio, pedisse desculpas e dissesse "isto é passado, já pedimos perdão, vamos focar agora no problema de estupros coletivos que assola nossas fileiras", você sinceramente acha que alguém daria confiança? Que daria uma plataforma pra um Pol Pot Jr. opinar em questões de direitos humanos? Ou em relação a qualquer coisa?

A única razão que consigo imaginar pela qual a ICAR não foi declarada um inimigo durante a WW2 - lembrando que o Vaticano foi PRIMEIRO estado a fazer tratados com o Terceiro Reich (vixi, não consegui escapar do Godwin!), o Reichskonkordat de 1933 que, por sinal, ainda está em efeito até hoje - e possivelmente a única pela qual o Pio XII não estava no banco dos réus em Nurenberg, foi porque a mesma afirma falar em nome do deus cristão. As pessoas de ótimo coração, que seguem a fé porque acham de verdade que é uma coisa positiva, esqueceram ou racionalizaram internamente as atitudes da igreja com uma velocidade impressionante.

A igreja deixou de perseguir mulheres por bruxaria, mas ainda defende a submissão destas aos homens. Ainda se opõe aos preservativos e toda forma de planejamento familiar que não seja a abstinência completa - onde ganha bonus points de ironia, tendo suas fileiras formadas em boa parte por supostos celibatários tentando ensinar aos outros como levar a vida sexual. É uma instituição que ajudou ativamente no genocídio de Tutsis em Ruanda, não no século XV, mas na última década do século XX! Se fosse uma organização secular já teria sido proibida e criminalmente processada em qualquer país civilizado do mundo.

Não digo que não hajam boas pessoas na igreja - isto seria um absurdo tremendo. A esmagadora maioria das pessoas religiosas (de qualquer credo) que conheço são indivíduos fantásticos, morais, que educam seus filhos e pagam suas contas em dia, que se horrorizam com as crueldades humanas e se encantam com a beleza do universo. Assim como as pessoas não-religiosas.

Também não afirmo que não hajam boas ações sendo realizadas por organizações católicas - obviamente tal afirmação seria também injusta. Doações, campanhas do agasalho, ajuda aos necessitados, há ações bacanas feitas por estes grupos. De forma similar, temos o Natal sem Fome do Betinho (que era ateu), os Medecins Sans Frontieres (seculares), e tantas outras organizações de caridade sem afiliação religiosa.

Dito isto, eu não acho que as boas ações redimam a ICAR de seus crimes passados e presentes. Não enquanto a liderança continuar arrotando superioridade moral e pregando as virtudes da humildade e da caridade sentada no alto de pilhas insanas do dinheiro. Ou enquanto insista em forçar suas opiniões não apenas naqueles que voluntariamente escolhem seguir seus preceitos, mas também nos não-seguidores (basta ver o lobby fortíssimo anti-união homoafetiva, anti-aborto, anti-uso de preservativos, etc etc).

Só para fechar, perceba que em nenhum ponto ataquei aqui a fé cristã, mas apenas a organização que se construiu ao redor da mesma. Não escondo de ninguém que tenho minhas opiniões e críticas em relação às afirmações místicas que formam os fundamentos da crença, mas isto não forma a base de minha antipatia pela instituição, cujas razões (bem, algumas poucas delas) mencionei acima.

4 comments:

Filipe Lanna disse...

http://www.youtube.com/watch?v=P4dSiHqpULk
Vc vai gostar desse vídeo... Mas nao gosto de incitar comentários chatos de pessoas no Facebook... nao tenho paciencia pra isso

Elite H@rd disse...

Em tempos, Deus substantivo próprio, portanto escreve-se em maiúsculo. :)

Felipe, o Campelo disse...

Olá Elite H@rd!

A grafia mais comumente encontrada é realmente em maiúsculo, mas estilisticamente só uso como substantivo próprio quando estou me referindo particularmente à divindade judaico-cristã - embora vira e mexe eu use outra notações mais exóticas, como Jeová, Iahweh, Javé, Tetragrammaton, Adonai ou Agla (putz, as leituras dos textos esotéricos do Cornelius Agrippa na época do segundo grau voltaram num puta flashback!)

De qualquer forma, só identifiquei no texto duas instâncias onde poderia ter usado maíusculo e não o fiz. Vou consertar lá.

Abração!

Sadraque disse...

Interessantíssimo o texto! Eu possuo críticas até certo modo fortes à fé e às organizações, e, embora não acredite na existência de um Deus, penso que exista um. Desde que me peguei pensando pela primeira vez se o tempo sempre existiu, as implicações de tal pensamento me fizeram concluir ser inviável separar a criação de um criador. Mas, voltando às organizações, já pensou onde estaria o nível de evolução tecnológico da humanidade, não fossem 1000 anos de censura ao pensamento científico impostos pela Igreja? Ótimo o blog.